Comédia e tragédia
Martha Medeiros
Tanto a alegria quanto a dor são muito enriquecedoras, desde que você não esqueça de se levantar de manhã e aproveitar a vida
A sua vida é uma tragédia ou uma comédia? Depende do seu olhar e do alcance do seu humor. É possível que você tenha motivos de sobra para rir e para chorar, assim como seu vizinho, seu dentista e seu melhor amigo, mas a prevalência da alegria ou do drama em sua rotina vai depender da maneira como você enxerga o mundo. A propósito, tanto a alegria quanto a dor são muito enriquecedoras, desde que você não esqueça de se levantar de manhã e aproveitar a vida.
Basicamente, este é o resumo do mais recente filme de Woody Allen a estrear em solo brasileiro, Melinda e Melinda. Eu já disse em outra ocasião mas repito: troco Star Wars, Cruzada e demais blockbuster por quaisquer 90 minutos deste cineasta genial que trata com absoluta simplicidade dos temas que nos são mais caros: o amor, a solidão, a vida e a morte. O que nos mobiliza além disso?
Relações humanas são meu prato predileto, minha cor preferida, meu número da sorte. As armadilhas das emoções, os conflitos existenciais, as ilusões da paixão, os ódios cultivados em silêncio, os amores idealizados, a vontade de abraçar todas alternativas ao mesmo tempo: tudo o que revela nossa fragilidade diante deste planeta chamado Vida Adulta. Alguns consideram Woody Allen um neurótico, eu o considero perito em dissecação. Cada vez que assisto a um de seus filmes, é como se ele me cortasse ao meio com uma gilete delicada e expusesse meus órgãos internos, em especial o cérebro e o coração, essa duplinha nervosa. Quando as luzes do cinema se acendem, minhas interrogações e certezas pulsam à vista de todos.
E com que elegância ele se manifesta. Os apartamentos de seus filmes são reais. Nada de megaespaços gélidos e minimalistas, e sim ambientes com muitos sofás, tapetes, livros, plantas, abajures, um amontoado de objetos, fotos e badulaques, essas coisas que nos dão a sensação de um lar e não de um showroom. A trila sonora é igualmente sofisticada: o jazz quase-silêncio, quase-sorriso, avalizando nossos mais íntimos sentimentos. Nada grita, nada berra, não é preciso. Os personagens não são caricatos, são seres iguais aos que cruzamos na rua, até esquecemos que depois do “corta!” eles vão tomar champanhe em Beverly Hills, parece que continuarão ali no set bebendo café e fumando compulsivamente. Aliás, fuma-se, bebe-se, mente-se, trai-se e mete-se os pés pelas mãos, nenhuma patrulha no encalço.
Woody Allen se repete? Aleluia, se repete. Os dias também se repetem. Nossos risos e lágrimas se repetem. O mar é continuamente igual. Acordamos sempre à mesma hora e quando saímos para comprar roupa quase sempre trazemos pra casa algo muito parecido com o que já temos. Nossa mãe fará hoje as mesmas perguntas do domingo passado, os telejornais continuarão dando a impressão de que vivemos no inferno e a voz de quem a gente ama continuará dando a impressão de que o paraíso é aqui. Quais são as novidades? Tudo na mesma, respondemos. Vivemos dilemas similares, só que algumas pessoas são mais sensíveis às avalanches emocionais, enquanto que outros são mais relaxados e se divertem. Comédia e tragédia é só um ponto de vista.
Domingo, 19 de junho de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.